A vida é um verbo. Viver. Implicitamente dá-se outro. Ser. Por tal fato, não vejo razão em dormir, vai de encontro com crenças minhas. Dormir depende de sono, o sono é um artifício da morte. Quando dormimos nada somos, não sei também se vivo. Dormir definitivamente não provém da vida, e sim da morte. O sono é traiçoeiro, nos enfeitiça com esperançosos desejos guardados profundamente. É tão poderoso que liberta os grilhões do nosso inconsciente, vence a nossa própria mente, o faz em segredo. É também teimoso! Quando nos privamos dele, castiga nosso corpo nos fazendo cansados. Alguém por um acaso gosta de sair por aí com duas olheiras gigantescas como abre-alas? A morte nos ronda se fazendo mistura no presente e no porvir, se apodera da fraqueza de nosso corpo através do verbo dormir. Porém, quando somos libertados do poder do sono, acordamos a cor dando à vida, como numa celebração ao abandono da ausência de tudo. Sim, a vida é um verbo. Então, cuidado. Seja! Apenas viva! É por isso que tento não dormir. Na madrugada vivo o intenso, como num gracejo por ludibriar a senhora do nada e do maior temor da humanidade. Rio na cara da morte, com uma xícara preta de café.
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sábado, 25 de agosto de 2007
Não durmo
“Não durmo. Não durmo. Não durmo. Que grande sono em toda a cabeça e em cima dos olhos e na alma! Que grande sono em tudo exceto no poder dormir!” Insônia - Álvaro de Campos
Não há dia mais melancólico que domingo. Eu mais uma vez escrevo em prosa, quando meu objetivo é fazer versos. Lembrei de um poema de Pessoa, pois tenho sono e não durmo. Tentarei uma poesia então.
Estou com sono e não durmo. Como? Não sei. Tento fazer meu pensamento parar. Concentre-se no ventilador. Sim, pois ventilar é obrigatório. Por quê? Não sei.
Sei que não ando cumprindo muitas obrigações. Ultimamente só ando pensando Nos desejos desejados, Nos beijos não dados e roubados, Em coisas que meu pobre pai teme que aconteça.
Concentre-se no ventilador. O por quê? Estou com sono e não durmo. Culpada é a cafeína, meu vício maior depois de escrever. E eu até arrisquei pegar um cigarro. Para quê? Acender.
Como estou cansada! Lógico, estou com sono. Porém, não durmo. Até minhas paixões estão mais brandas. Isso também é preocupante. Como pode uma paixão abrandar? Culpado é o cansaço físico e mental. Preciso dormir! Para quê? Só sei que preciso.
Volto para o computador em busca de algo. Quem eu encontro? Vinícius, velho. Sarava! Sei, são demais os perigos dessa vida, principalmente àqueles que têm paixão. Nem dormir conseguem! Displicentemente voltei para a prosa.
É, bem sei que é melhor ser alegre que ser triste. Triste como Florbela. Como me identifico com essa portuguesa! Quantas vezes desejei, Depositar nos lábios, Os beijos que recebi nas mãos. Quantas vezes sonhava comigo, indagando: Meus versos inspiram almas apaixonadas?
O ventilador não tem mais nenhuma importância. Meu sono já vai indo Assim como Viviane Álamo, O que se espera, mas se teme.
Será que viramos pedras quando morremos e dormimos seu sono eterno? Seremos como pedregosas lembranças nos caminhos das pessoas, as quais pensam que já nos fomos? Grande Drummond. Casaria com você se pudesse. Voltei à prosa! Mas que coisa! A horas não passam. Estou com sono e não durmo. Por quê? Não sei. Assim como não sei porque pedras existem. E passo a noite e me perguntar e responder vagamente. Para quê? Levantar e pegar mais café.
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